Futuro do nomadismo digital no pós coronavírus

Nos últimos anos, conforme as tecnologias da comunicação e da informação avançaram, vimos emergir um novo tipo de profissional: o nômade digital. Espalhados pelo mundo, inúmeros especialistas passaram a trabalhar remotamente, especialmente no mercado de marketing e comunicação. A moda conquistou diversos países, inclusive o Brasil. Mas qual será o futuro do nômade digital na era do coronavírus? Fronteiras fechadas, mudança cambial, desemprego e isolamento: há perspectiva do nomadismo digital com coronavírus?

Qual será o futuro do nômade digital na era do coronavírus?
Qual será o futuro do nômade digital na era do coronavírus?

Uma breve história antes do coronavírus

No início de 2018, deixei meu emprego de sete anos na B3, a bolsa de valores do Brasil, para passar uma temporada na França e dedicar-me a meu doutorado realizado pela PUC-SP e pela Université de Haute Alsace. Enquanto estava na França, criei o blog Ultrapassando Fronteiras – que, posteriormente, tornou-se uma fonte de renda -, além disso, comecei, remotamente, a prestar consultoria de comunicação para empresas brasileiras. Estava nascendo ali a minha trajetória como nômade digital.

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Todas as dicas com base na minha experiência de estudar lá!

A praça central de Mulhouse
A praça central de Mulhouse, cidade francesa onde fiz meu doutorado

Ao concluir essa etapa na França, criei a COMsulting, consultoria de comunicação cuja missão é contribuir para a estratégia e o negócio de empresas com operações no Brasil por meio de novos olhares e novas metodologias. Com isso, segui a vida do teletrabalho internacional. Contudo, não me tornei nômade digital do tipo viajeira non stop, cada dia num lugar. Optei por ficar períodos um pouco mais longos em determinadas bases, como Calábria, na Itália e Valencia, na Espanha para viver o dia a dia e sentir os lugares.

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A vista de Stilo olhando de dentro das ruínas da Chiesa Cattolica
A vista de Stilo, na Calábria, olhando de dentro das ruínas da Chiesa Cattolica

Nomadismo digital que conheci em Valencia

Aqui em Russafa – o bairro onde estou atualmente, que é meio o SoHo de Valencia – convivi com vários e várias nômades digitais, das mais diversas nacionalidades: italianos, espanhóis, franceses, ingleses, alemães, holandeses, venezuelanos e norte-americanos. Alguns estavam numa passagem rápida e, outros, ficaram mais tempo, como eu. Mas vou dizer que a maioria que conheci veio para passar pelo menos um ano e trabalhar de um lugar onde se tem praia, calor, povo receptivo e preços mais baixos que nos países do norte.

O que fazer em Valencia, Espanha, você confere aqui

Sou apaixonada pelo charme dos prédios de Russafa, Valencia
Sou apaixonada pelo charme dos prédios de Russafa, Valencia

É, por isso, que vale comentar que a principal característica de um nômade digital é ser um profissional que trabalha online. Ele pode trabalhar de qualquer lugar do mundo, sem ter necessidade de um escritório ou estar na cidade em que atende seus clientes. A base dessa forma de trabalho é ter boa conexão à internet e ferramentas digitais que facilitem o dia a dia. Vale, ainda, mencionar que o nômade digital pode ser um freelancer, mas também um colaborador em teletrabalho e, ainda, empresário. Assim, nomadismo digital é um termo que une trabalho remoto, mobilidade e tecnologia.

O nômade digital pode ser tanto freela quanto empresário ou funcionário em trabalho remoto
O nômade digital pode ser tanto freela quanto empresário, como eu, ou funcionário em trabalho remoto, com mobilidade

Indo ainda mais a fundo no conceito

Vale, contudo, destacar que nem todos que trabalham à distância são, obrigatoriamente, nômades digitais. É preciso então a parte nômade. Mas não é nômade digital quem está na estrada numa longa jornada. Ou seja, o Lua de Mundo – que faz uma lua de mel incrível, há dois anos caminhando pelos quatro cantos do planeta, fazendo alguns trabalhos locais – não se caracterizou como nômade digital. Outro exemplo que não se configura é o do Viajo Logo Existo, que rodou todos os continentes, de forma surpreendente, num 4×4.

Nomadismo digital em tempos de coronavírus

Assim que estourou o coronavírus na Europa, muitos de meus amigos que trabalham remotamente voltaram ao Brasil, buscando um ponto mais seguro. Dentre os fatores que alguns encontraram para esta decisão foi a retração do mercado em que atuam, a falta de trabalho e a mudança cambial. Era então necessário buscar uma moradia mais barata ou residir com familiares.

Alguns nômades digitais tiveram de voltar para o país de origem para residir com familiares
Alguns nômades digitais tiveram de voltar para o país de origem para residir com familiares | Foto por Elly Fairytale em Pexels.com

Por outro lado, uma parcela seguiu onde estava, esperando que a poeira baixasse, e acabaram – por vontade ou obrigatoriedade – se fixando em determinadas cidades. Nesse contexto, tivemos duas situações totalmente opostas. Para quem estava em um imóvel com um contrato por um período mais longo, puderam ter mais tranquilidade em ter um teto. Porém, aqueles que dependiam de hotéis, hostels ou Airbnbs, em alguns lugares, ficaram na mão por terem sido impedidos de fazer novos contrato. Somamos a esse cenário o dificultador da redução de vôos e outras opções de deslocamento.

Nem todos tiveram a sorte de conseguir ficar onde estavam para quarentenar
Nem todos tiveram a sorte de conseguir ficar onde estavam para quarentenar | Foto por Skitterphoto em Pexels.com

Vale dizer que, diante do cenário de COVID que se desenhou no Brasil, aqueles que ficaram em outros países sentem que hoje tomaram a decisão mais segura do ponto de vista do risco epidêmico. Esse é o caso, por exemplo, do escritor Matheus de Souza, que quarentenou em Chiang Mai, na Tailândia. Sem contar que, nesse sentido, os planos de saúde europeus são, no geral, muito mais em conta que os brasileiros, que, ainda, subiram, exponencialmente, nestes tempos para quem quisesse contratar um novo.

Chiang Mai abrigou nômades digitais brasileiros durante a quarentena
Chiang Mai abrigou nômades digitais brasileiros durante a quarentena | Foto por icon0.com em Pexels.com

O que os nômades digitais podem aprender com o coronavírus

1 – Existem limites para um nômade digital

Antes pensava-se o oposto. Acreditava-se que o principal limite existente era uma regra de visto e, remotamente, uma guerra ou conflito. Hoje, mais do que nunca, vale considerar que existem situações extremas de força maior que possam impactar planos, inclusive obrigar a sair de um país. Sem dúvida, o coronavírus traz um importante aprendizado para o nomadismo digital.

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2 – Mobilidade não depende só do nômade digital

Para alguns, estar constantemente em mudança passou a ser não só um estilo de vida, mas parte da identidade. Com bilhetes cancelados, banidos de hotéis e Airbnbs, muitos nômades digitais com o coronavírus entenderam, vivendo isso na pele, que a mobilidade não depende apenas deles.

Essa cena também é Berlim pra mim
Kreuzberg é o bairro de Berlim favorito dos nômades digitais

3 – É importante que o nômade digital mantenha um plano de saúde

Quem não se fixa por muito tempo em um endereço às vezes tem seguro viagem com cobertura de saúde, mas não mantém planos de saúde. Contudo, os seguros viagem não incluem pandemia. Por mais que alguns tenham aberto essa possibilidade, não dá para correr alguns riscos. Assim, é importante ter um porto seguro de saúde para correr. Desde que saí do Brasil, sempre mantive algum plano de saúde ou um seguro de maior duração que cobrisse o mundo ou toda a Europa e também um plano no Brasil, que uso para fazer meu check up anual quando visito a família.

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É importante que o nômade digital mantenha um plano de saúde e não somente um plano de saúde

4 – Paciência e jogo de cintura extra são fundamentais ao nômade digital

Entende-se que ser nômade digital é ser flexível. Porém, as coisas não são bem assim. Nem todos têm esse perfil, como o coronavírus mostrou. Conheço nômade digital que pirou em quarto de hotel enquanto viu, por dias, o vôo de volta ao Brasil ser cancelado. Mas, se você quer assumir esse estilo de vida, é preciso um astral muito zen para enfrentar cada desafio. Aliás, eles não são poucos, viu? Então não pense que nômades digitais estão imunes a eles; pelo contrário!

Coronavírus mostrou que paciência e jogo de cintura extra são fundamentais ao nômade digital
Coronavírus mostrou que paciência e jogo de cintura extra são fundamentais ao nômade digital

5 – Assuma e encare o risco das decisões

A nômade digital Lauren Keith conta em um artigo que, com o coronavírus, se viu entre uma terrível decisão: ficar em Londres e falir com os preços da cidade, voltar para a casa dos pais nos Estados Unidos sem plano de saúde ou seguir viagem a outro destino. Especialista em produzir conteúdo sobre Norte da África e Oriente Médio, a nômade digital planejava ir à Turquia e foi o que fez diante do COVID! Sem saber se teria renda e problemas com visto expirado, curtiu a Capadócia e Istambul sozinha. Aliás, sem conhecer uma palavra da língua, teve de se virar no lockdown para fazer compras e com o fato de ter sido a única hóspede de um hotel. Hoje ela diz que “até em tempos como esse, não tem nenhum lugar como a nossa casa. E a minha casa é qualquer lugar que eu esteja agora” (tradução nossa).

Diante do coronavírus, a nômade digital Lauren Keith saiu de Londres e seguiu para a Turquia, assumindo os riscos Foto por Alex Azabache em Pexels.com

6 – É preciso considerar uma alternativa ao café e ao co-working

O nômade digital, com coronavírus ou não, pode viver em qualquer lugar, contanto que tenha uma boa conexão à internet. Cidades como Valencia mesmo, além de Chiang Mai (Tailândia), Budapeste (Hungria), Lisboa (Portigal), Belgrado (Sérvia) e Floripa têm uma infinidade de cafés e co-workings, mas eles não são seguros neste momento. Assim, o Aibnb ou então quarto de hotel podem se converter em local de trabalho. Nesse sentido, o ambiente da hospedagem para o dia a dia de trabalho e a qualidade da conexão que oferecem são fundamentais para a decisão por adotar o modelo de nomadismo digital pós coronavírus.

Quarto do Hotel Pétit Palace em Rusafa é uma boa dica de onde se hospedar em Valência
Quarto do Hotel Pétit Palace em Rusafa é uma boa dica de onde se hospedar em Valencia

7 – Conhecimento de finança pessoais é obrigatório a um nômade digital

Em geral, os nômades digitais estão longe de serem ricos. Diversos podem ser muito bem remunerados, mas não significa que estão imunes a uma crise. Quando se tem uma situação adversa globalmente ou localmente, como o coronavírus, isso pode impactar diretamente a renda de um nômade digital. Saber planejar se financeiramente é então fundamental, como o coronavírus revelou aos nômades digitais.

Coronavírus comprovou que o conhecimento de finança pessoais é obrigatório a um nômade digital
Coronavírus comprovou que o conhecimento de finança pessoais é obrigatório a um nômade digital – Foto por Pixabay em Pexels.com

8 – É preciso que o nômade digital tenha reserva de emergência

Nesse sentido, ter uma reserva de emergência é um pré-requisito anterior ao COVID que ganha ainda mais peso agora no universo do nomadismo digital. O coronavírus testou muita gente, principalmente nos primeiros meses, quando muitas empresas puxaram o freio de mão das despesas por desconhecerem o cenário futuro. Até para pagar os caríssimos vôos Europa-Brasil, que estavam em cerca de R$ 10 mil a perna em março, no auge do coronavírus, para o nomadismo digital você precisa de uma reserva.

Outro aprendizado do COVID é a necesiade de o nômade digital ter reserva de emergência
Outro aprendizado do COVID é a necesiade de o nômade digital ter reserva de emergência – Foto por maitree rimthong em Pexels.com

9 – Hedge cambial é fundamental para o nômade digital que trabalha de outro país

Além disso, o nomadismo digital internacional, a nos levar a outros países, nos traz o desafio cambial, nos deixando à mercê de oscilações cambiais. Em linhas gerais, posso dizer que em maio de 2020 meu poder de compra em euros era 40% menor que no início de 2018, quando me mudei do Brasil. É preciso então conhecer os mecanismos de proteção de seu capital contra oscilações cambiais, como fundos e COEs cambiais, além de manter valores em contas no exterior.

COVID conformou que hedge cambial é fundamental para o nômade digital que trabalha de outro país
COVID conformou que hedge cambial é fundamental para o nômade digital que trabalha de outro país – Foto por Markus Spiske em Pexels.com

Nomadismo digital no pós coronavírus

Com esses 9 aprendizados que o coronavírus trouxe aos nômades digitais, esse estilo de vida mudará. Sensibilizadas e calejadas, as pessoas atentarão mais a esses cuidados; saberão então que existem riscos que devem ser mapeados e considerados. O nômade digital que seguirá após o COVID e que sobreviverá financeiramente e emocionalmente a esses desafios é aquele que soube ter uma reserva, teve jogo de cintura e, ainda, soube corrigir rotas, quando necessário.

Ubik café oferece o ambiente mais diferente de toda Russafa, Valencia
Ubik café oferece o ambiente mais diferente de toda Russafa, Valencia

O coronavírus não é o fim do nomadismo digital. Ele os nômades digitais tendem sim a seguir no pós COVID. Pelo contrário, o contexto atual antecipou, segundo especialistas, o futuro do trabalho. Cada vez mais pessoas poderão trabalhar remotamente e, mais importante: estarão mais acostumadas com os desafios do teletrabalho.

As perspectivas para os aspirantes a nômade digital são promissoras nesse pós-COVID. Contudo, apenas aqueles que souberem se planejar, reduzir riscos e jogo de cintura seguirão nesse modelo de vida. E essa não é uma novidade, pois a mesma premissa já vale, há tempos, para as empresas.

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