Como encontrar documentos de familiares falecidos

Para quem almeja pedir uma cidadania estrangeira, além de encontrar a certidão de nascimento do antepassado estrangeiro, é necessário também localizar todas as certidões de nascimento, casamento e óbito de familiares nascidos no Brasil e apostilar e então preparar a pasta. Essa é uma tarefa que às vezes pode ser mais complexa do que localizar documentos no exterior.

Eu já passei esse perrengue e, depois de desvendar alguns caminhos, resolvi escrever para ajudar quem está nessa missão. Como comentei no post sobre as buscas que realizei para localizar certidões de nascimento no exterior, levantei documentos de familiares italianos e espanhóis. Do primeiro foi dificílimo e do segundo tranquilo.

Como encontrar documentos quando você já tem as informações

Vamos começar então pela explicação de quem está numa situação mais fácil. Você conhece a data exata ou o ano e o nome correto de todos no documento, além da cidade em que está registrado? Ou tem a cópia deles? Esse é o melhor dos mundos! Você pode pedir a certidão direto no cartório. Se não estiver na mesma cidade, tenho uma boa notícia. Sites como Registro Civil  ou Cartório 24 horas fazem isso por você e te entregam em casa.

Qual a diferença entre esses dois sites? O primeiro atende algumas regiões e não oferece apostilamento nem documentos em inteiro teor (os que normalmente são solicitados para esse tipo de processo). É, contudo, mais barato, eficiente e rápido. O segundo cobre todo o Brasil e oferece todo o tipo de emissão, mas o processo é moroso. Eles demoram semanas para identificar o pagamento, tardam a solicitar ao cartório e, como resultado, às vezes você espera dois meses para receber em casa. Isso aconteceu comigo e esperei dois meses para um dos documentos chegar.

Custo? O Registro Civil tem o preço só um pouco mais caro do que pedir direto no cartório. O Cartório 24 horas é super caro. Se puder, evite fazer com eles. Minha experiência não foi legal.

A boa notícia é que algumas cidades estão com cartórios interligados. No Estado de São Paulo, por exemplo, conseguimos pedir um documento registrado em outra cidade para ser expedido pelo cartório perto de casa. Depois da experiência ruim com o Cartório 24 horas, como os documentos da minha família estão em cartórios do mesmo estado, eu não faço mais o pedido on-line. Vou no cartório mais fácil pra mim, ou melhor, peço para algum familiar ir, pois moro no exterior :). Geralmente, demora uma semana pra ficar pronto. E ainda melhor: os documentos que fiz assim saíram metade do preço ou até menos do que pelo Cartório 24 horas.

Em todos esses casos em importante você saber direitinho a grafia do nome das pessoas, nome dos pais, a data ou ao menos o ano e o cartório correto.

Como encontrar documentos quando você não tem todas as informações

Eu tive esse desafio. Eu não sabia onde estava a certidão de casamento e a de óbito do meu bisavô italiano. O casamento foi fácil. Encontrei em pastas antigas dos meus avós o registro do casamento dos meus bisavós na igreja. Como naquela época existia cartório no Brasil, o documento da igreja não seria válido. Eu então fiz minha primeira solicitação no site Registro Civil colocando os mesmo nomes e data e direcionei o pedido para o cartório da cidade onde estava a igreja. Deu certo! Recebi em uma semana a certidão – não em inteiro teor, a comum – em casa.

Hoje, contudo, sei uma estratégia que recomendo você usar antes de pedir o documento, só para confirmar se os nomes e a data da igreja e cartório batem. Essa é a dica mais valiosa desse texto, pois bati muita cabeça antes de saber disso!

Assim como sites de árvores genealógicas têm documentos antigos digitalizados que estão situados em outros países, eles também possuem arquivos do Brasil. Alguns estados, como São Paulo e Rio de Janeiro estão com boa parte dos livros de registro arquivados lá. O melhor para isso, na minha opinião, é o Family Search. Não precisa pagar nada. Basta se inscrever, acessar a aba “Documentos”, clicar em Brasil e colocar o nome da cidade.

Boa parte dos arquivos não está indexados, ou seja, não tem o nome atribuído à respectiva página. Com isso, se você não localizar pelo nome do parente, você precisa pesquisar a cidade, selecionar o cartório, selecionar o livro (por registro de nascimento, óbito ou casamento e data) e depois, com muita paciência, navegar página a página até encontrar o registro que procura. Se você tiver a data e o cartório certo, conseguirá correr as páginas e achar rapidinho. Se não tiver, respira fundo e corra uma a uma que uma hora você chega no que procura.

Se você não achou na busca pelo nome e também não sabe a cidade, não vai conseguir pela opção que acabei de dar, eu sei. Mas então entra a investigação. Comece a conversar com a família sobre o tema, checar com pessoas antigas o que sabem e em que lugares os antepassados viveram e vá tecendo um mapa com raio de cidades e possibilidades. Depois que conversar com todos os familiares (inclusives primos de 5o grau, tios avós, etc) mais velhinhos possivelmente terá boas pistas que te ajudarão a buscar nos livros de família que estão no Family Search.

Vou te contar minha experiência pessoal. Meu bizavô morreu nos anos 1940 com uma doença que foi uma epidemia na época, a lepra. Naqueles tempos, quando se descobria que alguém tinha lepra, o estado mandava levar essa pessoa a força para atendimento médico. Não se sabia onde a pessoa estava e a informação sobre o óbito vinha desencontrada e com atraso. Bem, meu bizavô foi levado para um lugar que meu avô não soube onde era e lá morreu. Só se sabia o ano e a data aproximada. Eu sempre escutei que tinha sido em São Paulo.

Eu fiz uma pesquisa em uma série de cartórios da cidade e gastei uma super grana com isso e nunca encontrei. Foi depois delas que descobri a ferramenta do Family Search.

O que eu fiz então? Conversando com a minha avó, minha mãe descobriu que ele deveria ter ido a um lugar especificamente destinado a pessoas com essa doença. Tínhamos mais uma pista. Fiz também uma pesquisa sobre a lepra na cidade de São Paulo. Descobri que o Emílio Ribas era o hospital que costumava tratar desse assunto e que o cartório de Bela Vista que registrava os óbitos do centro médico.

Eu fui lá nos livros do cartório da Bela Vista e olhei o ano, um antes e um depois da referência que eu tinha do óbito. Foi horrível. Vi vários nomes de mortos, motivos de falecimento e, inclusive, vários bebês que nasceram já mortos. Depois de um dia inteiro nisso e sem encontrar, tive de ampliar o raio.

Li então numa tese que existiam no estado os chamados preventórios, onde a pessoa passava por uma triagem para verificar a gravidade da doença, e os asilos colônia, nos quais os doentes em estágio avançado ficavam até morrer. Sim! Foi difícil digerir essas informações. Fiquei bem mal de descobrir que meu bisavô tinha passado por tudo isso.

Foi então que listei todos os preventórios e os asilos colônia do Estado de São Paulo. O próximo passo foi classificá-los por distância da cidade onde morava minha família. Uma vez feito o mapeamento, comecei as pesquisas nos livros. Olhei a primeira cidade e nada.

Fui pesquisar a segunda cidade. Algo me dizia para olhar com cuidado. Eu, de alguma forma, sentia que ia encontrar ali. Olhei então o arquivo da segunda cidade e ali estava, no mesmo ano e o nome certinho, registrado como falecido no asilo colônia e enterrado na mesma cidade.

Agora contando parece que foi rápido. Mas não foi. Demorei anos para conseguir levantar todas essas fontes e informações. Assim, se você estiver numa missão que pareça impossível, não desista. Preparar a documentação para pedir uma cidadania é um exercício de paciência e persistência. A cada documento, uma vitória. A cada descoberta, estamos mais próximos do percurso de quem veio ao mundo antes de nós para que hoje existíssemos. Hoje eu posso dizer: sou mais Norcia do que era. Como diz minha mãe, agora sou mais Norcia que todos da família. E eu não abro mão dessa cidadania por nada, pois além de ser meu sangue, todo esse enredo e aflições fazem parte da minha história.

A cidadania é para mim mais que uma porta de entrada para alguns países. A cidadania é a minha conexão com meu avô que tanto amo – infelizmente, está falecido -, que me educou, cuidou de mim, buscou-me na escola quando estava doente e transmitiu o meu sobrenome. Ele também ensinou as primeiras palavras e expressões italianas que conheci, além das primeiras receitas e informações sobre a cultura e a história daquele país. Foi ele quem fez o pai e o irmão virarem nome de rua na cidade onde moraram e que começou as buscas sobre a história da família e os documentos dos antepassados. Se hoje existe uma arvore genealógica dos Norcia no Brasil, foi meu avô que fez, completinha, com fotos e histórias de diferentes gerações.

Meu avô é a minha conexão com a Itália, com a história de quem veio antes de mim, com o sobrenome que eu não abro mão por casamento nenhum nem deixo de querer colocar em meus filhos por vir do lado materno. Sempre fui Norcia, sempre me chamaram de Norcia, por mais que não seja meu último sobrenome. Sou Daniela e sou Norcia, neta de Loretto, o homem que um dia sonhou ter a cidadania dos pais, por resgate da família que perdeu tão cedo e sem saber muito o porquê. E eu sou a Daniela Norcia que achou o que o avô sempre quis encontrar, completou a história que ele desconhecia e agora pode fazer com que todos os filhos, netos e bisnetos dele sejam italianos como ele sempre sonhou.

Eu não sei dizer precisamente quantos anos essa busca pela cidadania durou. Eu era pequena. Quando eu era adolescente lembro de meu avô tentar achar a certidão de nascimento do pai pessoalmente na Itália. Por anos, milhares de contatos. Há exatos dez anos meu avô faleceu. E eu segui na nossa saga. Por ele e por todos nós de casa consegui. Podemos voltar às origens.

Se é isso que você está buscando, desejo, com todo carinho, que consiga também. E que seja algo de grande significado a todas as gerações não pelo papel, mas pelo o que o papel carrega de história e vínculo.

Se precisar saber o que é e como funciona o apostilamento ou como encontrar documentos no exterior, explico também tudo aqui no blog! Fiz também um post explicando como montar a pasta para cidadania italiana.

Você encontra ainda aqui como tirar a cidadania italiana se você mora no exterior com base na experiência que tive na França e como reconhecer cidadania espanhola de filhos e netos de espanhóis.

Como encontrar certidão de nascimento de familiar falecido

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s