À procura do Olho da Bruxa de Thann

Quando eu morava Mulhouse, na Alsácia, e passava algum final de semana lá, era obrigatório conhecer algum lugar novo. Eu sempre gostei de fazer isso: ser viajante na minha própria região. Era uma prática minha muito comum também em São Paulo. Toda vez que descobria um parque, um museu, restaurante ou outra atividade diferente, sempre anotava para fazer quando tinha um tempinho livre.

Essa prática das listas aqui na Alsácia, entretanto, demandava dedicação. Saindo das tradicionais atrações da rota do vinho e de Strasbourg, não vemos muitas menções diferentes em guias e sites. O negócio é garimpar! Seguir perfis, fuçar bastante na internet e conversar com pessoas. Foi meio assim que fiquei sabendo de Thann.

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Thann é cortada pelo rio Thur e possui diversas casinhas coloridinhas ao redor dele

A primeira vez que vi esse nome foi porque tem um trem que passa dentro da minha cidade e tem Thann como ponto final. Pela facilidade de acesso, já que eu não tenho carro aqui, eu estava curiosa pra ir.

A segunda vez foi porque essa é a primeira cidade da rota do vinho. Ela não é muito destacada nos textos. Sempre só a comentam como a primeira. Então isso não ajudou muito a criar um interesse muito grande. Deixei Thann de lado um pouquinho para quando a lista estivesse sem opções.

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Ao fundo do rio vemos os vinhedos, além de uma grande cruz

Então veio o terceiro comentário. Uma alemã que conheci contou que esteve lá para fazer trilhas e que essa cidade tinha muitas delas nas montanhas. O meu interesse cresceu, mas logo me desinteressei quando ela comentou que tinha se perdido numa trilha com uma amiga e que, depois de horas, encontrou um carro e pediu ajuda para voltar.

Até que um dia Thann me apareceu pela quarta vez! Eu pensei na cidade depois de ler em outro guia e comecei a fuçar na internet para ver mais o que tinha. Num site muito ruim e só com uma foto dizia que lá estava o “L’oeil de la sorcière” (Olho da Bruxa), um resquício de um castelo destruído por Luiz XIV.

A foto me intrigou muito. Era o resto de uma construção, mas parecia uma pedra celta, algo muito antigo de antes de cristo. Eu via aquilo no alto da montanha e fiquei muito curiosa pra ver. Mas eu não conseguia encontrar qualquer informação de como chegar lá.

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As ruínas do castelo, hoje conhecido como Olho da Bruxa

Resolvi ir na cara e na coragem sem saber se ia dar certo! No mínimo, eu tomaria um vinho e viria mais uma cidade antiga com vinhedos. Então peguei o trem e segui rumo à Thann!

Foi só entrar que pensei: e agora? Existem quatro estações com nome de Thann. Sim! Dificultou. Tem a cidade Thann Velha (eu achava que era essa), a Thann Velha Industrial, a só Thann e a Thann Estação. Quando parou na primeira olhei pras montanhas e não vi nada. Achei que não era lá. No mínimo eu iria uma a uma e poderia voltar pra trás alguma estação se não estivesse na última.

Foi chegando na última que olhei pra cima e avistei. Era ela! A pedra que eu queria ver. Sem conhecer a cidade nem falar com ninguém, fui seguindo o caminho até a catedral. Nessas cidades, tudo começa tendo a catedral e a prefeitura como marco, certo? Era o meu raciocínio.

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A catedral de Thann, mal cabe na foto!

A igreja é bem bonita, por sinal, com vitrais e esculturas. Tem o estilo gótico medieval e telhado bem típico aqui da Alsácia e do Sul da Alemanha. Parece muito, em dimensões menores, a catedral de Strasbourg e a de Freiburg, na Alemanha. Uma das coisas que me impressionou é que dentro da igreja tem calefação em cada banco. Eu nunca tinha prestado atenção nisso. Do lado de fora, há uma fonte com escultura de St Thiebaut, cujas relíquias estão na catedral, tornando o local um destino de peregrinação.

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O interior da catedral

Vi então uma placa para o museu da uva e depois uma ponte em cima de um rio. Até então eu estava achando tudo bem interessante. Uma cidade antiga e bem pacata como a Altkirch, no Sundgau, que um dia eu conheci por acaso. As casas são coloridinhas, todas floridinhas e a cidade ultra conservada, o que tem me parecido uma regra bem seguida à risca aqui na região.

Eu segui em direção ao museu da uva, que estava fechado, mas está num ponto bem legal, na lateral do rio, com vista para os vinhedos e já vi a placa que eu tanto buscava.
Aliás, vi placa para diversas trilhas. Meu coração bateu mais forte: eu desejava muito chegar naquele lugar, sabe lá o motivo. Talvez o da descoberta. Da minha descoberta de algo que ninguém nem nenhum guia mencionava.

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A sinalização para as diferentes trilhas

Meu caminho, como eu estava à pé, começou então por dentro de ruas muito fofas com casinhas antigas. Thann está no nordeste da França no pé das montanhas dos Vosges, no Vale do rio Thur. Os relevos e o rio descem até o meio da cidade. É bem bonito como a natureza toca o que foi construído lá.

As casinhas de Thann
As casinhas de Thann

A região era dos condes de Ferrette, mas em 1635, na Guerra dos 30 anos, a cidade foi tomada pelas tropas imperialistas. Um missionário delas descreveu a cidade como “linda, situada em uma montanha extremamente fortificada”. A 43 km de Colmar e 21 km de Mulhouse, foi bem impactada pela I e a II Guerra.

Vista da cidade da montanha do Olho da Bruxa
Vista da cidade da montanha do Olho da Bruxa

A trilha é bem tranquila. São uns 20 minutos com certa inclinação no meio de uma mata, com o caminho todo de terra batida e pedras. Lá se vê adultos, crianças e idosos. É um passeio bem família. Muita gente vai fazer pique nique.

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A trilha é preparada e pouco íngreme

Quando a trilha estava acabando e a mata se abrindo, eu vi o que tanto desejava. A minha felicidade de conseguir ir sem qualquer referência precisa é indescritível! Andei vagarosamente até lá, parando em cada um dos mirantes com banquinhos e explicações sobre a história do local. Eu ainda fui mais que presenteada com a vista! Ah! Que vista! Se vê toda a cidade e os vinhedos. Maravilhoso!

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Nesse momento, morri de felicidade de encontrar a tão desejada pedra. Acho que o casal da foto também ficou…

As ruínas do Château de Engelbourg estão um uma montanha no Norte da cidade. Ele foi construído no século XIII pelos condes de Ferrette para controlar a entrada do vale e garantir o pagamento de taxas por aqueles que quisessem atravessas os Vosges pelo rio Thur, tendo em vista que aquele era um caminho importante comercial para Flandres e o Norte da Itália. O primeiro registro que se tem da torre é de 1411.

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A vista para os vinhedos de quem está no Olho da Bruxa

O castelo, entretanto, foi destruído a pedido do Luiz XIV, pois entendia que ele não era mais estratégico. Na demolição, uma das torres caiu dividida em duas partes, uma delas na forma de uma grande pedra no formato de um anel, hoje chamada de O Olho da Bruxa (L’oeil de la Sorcière), a minha tão desejada visão.

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O Olho da Bruxa na composição com os demais resquícios do castelo

Fiquei por lá um tempão. Tomei água. Sentei na sombra. No sol. Fiz 500 fotos. Fiz alongamento, yoga e meditação. Eu queria aproveitar ao máximo a felicidade de conseguir estar lá e a vista que o meu domingo ganhava. Depois de tanto deleite, desci para degustar os famosos grand crus produzidos nos vinhedos do século XVI que eu tinha com tanto carinho observado.

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Pessoas acessam a pé ou de bike e aproveitam para relaxar ou fazer piquenique

Se estiver na Alsácia e quiser viver um momento diferente de natureza cercado pelos vinhedos, coloque o L’oeil de la Sorcière no seu roteiro. Sei que em férias queremos aproveitar tudo ao máximo e fazer várias atividades, o que torna a escolha entre um local e outro difícil. Se quiser avaliar os prós e contras, eu digo que esse não é o melhor destino da rota do vinho. Prefiro Colmar, Kaysersberg e Riquewir. Se quiser um dia relax com natureza, essa é uma boa pedida. Ainda mais se for combinada com o Parque Natural Regional dos Balões dos Vosgues. Thann está no caminho para lá e esse é um local que já está na minha lista para um dia em que estiver de carro!

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