Reflexões na lavanderia: como é cuidar da roupa e se vestir na Europa de hoje

Minha avó materna é uma grande expert em lavar roupa. Sabe aquela mancha que ninguém consegue tirar? Ela sabe como! E foi com ela que aprendi alguns truques com o cuidado com as roupas, sem contar aquelas regrinhas que nós brasileiros usamos em casa: nunca misture coloridas com brancas ou cama e banho não vai com item pessoal.

O fato é que quando nos mudamos para a Europa vemos que, muitas vezes, não conseguiremos aplicar tudo isso da mesma forma que aprendemos em casa no Brasil. Não existe tanque nas casas. Aliás, não tem nem ralo! E é grande a chance de você não ter sua própria máquina de lavar. Será necessário apelas para a do prédio ou a de um estabelecimento em que se paga por utilização desse aparelho.

Já na primeira leva de peças nos deparamos com esse desafio. Ao começar pela íntima. Eu sempre coloquei as minhas em saquinhos. Aqui na Alsácia e também em Valência, onde meu namorado mora, não encontro eles em lugar nenhum! Ou seja, não dá para separar as peças delicadas. Toda vez que viajo, esse é o item que mais busco. Ainda sonho com a hora que encontrarei algum ou que algum conhecido venha me visitar e me presentear com esse tanto desejado acessório doméstico!

Sem o saquinho de roupas, só me restou uma alternativa: o banheiro. Os sutiãs, coitados, estão indo diretão pra máquina. Mas as calcinhas, mais delicadas, cheias de rendas, são lavadas à mão no chuveiro. Como varal é uma coisa praticamente inviável no meu pequeno apartamento sem varanda e com uma janela que mal abre, a calefação ganhou uma nova função. Em vez de deixar só as tolhas nesse importante item (principalmente para os invernos rigorosos que tem aqui nas montanhas) do banheiro, a minha roupa íntima também seca por lá.

Agora e as manchas e encardidos que não saem de jeito nenhum e minha avó ensinou que, se deixar de molho, resolve? Apelamos para a tecnologia! Felizmente, as prateleiras dos supermercados têm mais opções do que no Brasil. É inclusive muito difícil escolher entre um sabão e outro, além das opções de amaciantes, pré-lavagens e tira manchas.

É nessas hora que me pergunto: por quê não temos todas essas opções em nosso país? Fico encantada com o arsenal de produtos e soluções para a casa que nem sequer posso sonhar em acessar em ter acesso na minha cidade natal. Eis aí um grande ponto positivo!

O que eu não consigo solucionar, contudo, é às vezes ter de me deparar com pêlo na roupa. Sim! Antes de você, é Murphy, vai ter alguém que lavou um tapete peludo. Se, pior, alguém não tiver colocado panos imundos. Isso também vai contra a minha lição de casa de que não se põe pano de limpeza na máquina.

Com o tempo, nos adaptamos a esse universo e aprendemos até a despender menos esforços em atividades que não sejam práticas e que forneçam mais engrandecimento para nossa vida. Nesse processo, estou aprendendo a me desvencilhar das escolhas de vestidos e camisas de tecidos difíceis de passar e guardar (até porque é difícil ter armário grande e muito espaço pra cabide aqui).

Esqueça as cenas das parisienses de vestidos de seda esvoaçantes, das camisas impecavelmente engomada. A Europa é hoje muito mais descolada do que há dez anos atrás. A moda acompanhou esse processo e mudou muito. Facilitou a vida das pessoas. Novos tecidos, novas tecnologias (outra vez) chegaram para ajudar as gerações de hoje.

As pessoas não são molambentas hoje. Não é isso. Elas continuam bem vestidas, ainda mais aqui na França, berço da moda. As pessoas estão mesmo mais preocupadas com o que importa mais e querem perder menos tempo com o que não agrega à vida. Calças jeans hoje fazem belo par com blazer e são graciosamente adornadas por lenços. As grandes marcas têm investido em maravilhosos tênis, mochilas e sapatilhas.

Influência americana? Tem muito sim. Aposta e esforço de venda da indústria da moda? Também. Mas alinhado ao mundo de hoje. E à francesa. Vou te dizer que os acessórios, adereços e toques do país do champagne deixam o look incrível do mesmo jeito.

Isso vai continuar em algumas décadas? Não sei. A minha única certeza é de que essa realidade me ajuda a enxergar ainda outras coisas que valem mais à pena. E que tenho mais um tempinho para me dedicar a passeios, viagens, leituras, relacionamentos, conversas… e aos textos também! 🙂