Como fazer doutorado na França

Como fazer doutorado na França

Quando decidi fazer doutorado fora do Brasil, algumas escolhas e acontecimentos desenharam o doutorado sanduíche que estou fazendo hoje. Inicialmente, eu queria fazer todo o curso na França. Comecei então a procurar, por e-mail, as faculdades.

Descobri então que aqui o doutorado tem uma particularidade: você não passa por um processo de seleção da universidade – como ocorre na França na graduação, especialização ou mestrado – é o orientador que te escolhe. Assim, você precisa acionar professores que sejam especializados no tema que te interessa e apresentar um projeto de pesquisa curtinho, de cerca de quatro páginas.

Foi o que fiz. Escrevi o meu projeto, fiz uma carta de apresentação explicando meus interesses, pesquisei e-mails e enviei para algumas pessoas. Ninguém sequer me respondia. Nesse momento, decidi começar a acionar brasileiros que estudavam nas faculdades que me interessavam.

Na França, as Écoles Doctorales são os programas, dentro das universidades, que realizam os doutorados. Muitas delas estão ligadas a laboratórios de pesquisa (seria um pouco equivalente, no Brasil, a uma mistura de centro de estudos com departamento de área). Boa parte dessas Écoles Doctorales e dos laboratórios tem sites próprios e o contato de todos os orientadores (directeur de thèse) e dos estudantes em curso (doctorants). Assim encontrei uma brasileira que me explicou: dificilmente um francês aceitará um brasileiro para fazer um doutorado com ele se não fez o mestrado com esse orientador.

A charada estava desvendada. Como no mestrado prepara-se o projeto de pesquisa do doutorado, muitos orientadores não querem trabalhar com um estudante direto no doutorado. E tive certeza dessa informação quando um professor de uma universidade que me interessava muito disse que me aceitava desde que eu fizesse um mestrado com ele. Como eu já tinha feito mestrado no Brasil, eu não quis.

Diante dessa dificuldade, decidi começar a estudar no Brasil e a buscar um sanduíche no exterior. Acionei a diretora de um laboratório do interior da França que tinha publicações com temas e abordagens na linha que eu queria. A universidade dela tinha convênio com a minha, o que facilitaria muito, e ela aceitou me receber. Assim, tirei férias para ir à França e conversar com ela.

Foi só conversarmos dez minutos e deu liga! Ela me fez uma proposta de co-tutelle, em que ela assina a tese como uma segunda orientadora e você tira os dois diplomas, o brasileiro e o francês. Eu só teria de passar um mês por ano na França, o que seria meu período de férias. Perguntei ao meu orientador do Brasil e ele topou! Como as faculdades já tinham um acordo, era só dar sequência na minha papelada. O mundo perfeito.

Alguns meses depois, duas surpresas: a orientadora francesa estava mudando de faculdade e, para dificultar, a legislação francesa tinha sido alterada. Aceitei ir para a nova faculdade dela, que não tinha convênio com a minha, mas a legislação atual do País não me permitia mais tirar o duplo diploma, pois só concederia a pesquisadores que se dedicaram integralmente ao doutorado e não trabalharam.

Meu doutorado fora virava agora sanduíche, OK, de volta ao objetivo inicial. A papelada ficou facilitada porque o acordo da faculdade estrangeira passava a ser direto comigo, sem envolvimento com o Brasil; e eu me tornei, para a universidade da França, burocraticamente, uma pesquisadora (chercheuse) e não uma estudante (étudiante). Nesse muda e não muda, demorou um semestre a mais, mas estou aqui!

Assim, em resumo, o que é importante você saber sobre fazer um curso acadêmico na França:

* Para ingressar no mestrado, basta aplicar direto na faculdade que você tem interesse ou com o auxílio da Campus France (órgão francês que cuida especificamente de estudantes estrangeiros);

* Uma das principais entregas do mestrado francês é o projeto de pesquisa;

* O doutorado está sujeito ao aceite do orientador;

* Nem todo orientador francês aceita que você faça doutorado com ele sem ter preparado o projeto de pesquisa com ele no mestrado;

* Os sites das escolas doutorais e dos laboratórios têm o nome, o contato e CV dos orientadores e pesquisadores;

* Dupla diplomação envolvendo uma faculdade francesa só é válida se firmada no primeiro ano do doutorado e se o pesquisador tiver dedicação exclusiva à pesquisa + bolsa do país de origem;

* O estudo na França é gratuito, mesmo em instituições particulares, e o que varia é o valor da taxa de matrícula anual (varia de 300 a mil euros);

* Quem faz doutorado sanduíche e vai como pesquisador porque não tirará diploma da faculdade estrangeira não paga nada, nem a matrícula;

* O doutorado sanduíche não demanda acordo entre faculdades, só é preciso o doutorando entregar um relatório de pesquisa para a faculdade brasileira na volta;

* A Campus France só auxilia estudantes e os pesquisadores precisam fazer o processo para obtenção de visto no consulado. Pode deixar que essa parte eu conto, no detalhe, em outro post! Confira!IMG_2531

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